Crítica Bem Amadas

Uma difícil reflexão sobre o amor.
Sempre gostei do diretor Christophe Honoré. Pra mim, ele te força a fazer uma coisa que gosto, depois de ver um filme: pensar. É impossível passar imune aos seus filmes. Sai do cinema e fui andando sem rumo pela avenida Paulista, tentando absorver todo aquele enredo.
Somos transportados a quatro décadas e cinco cidades diferentes, Paris, Londres, Montreal, Praga e Reims, acompanhando a história de Madeleine (Catherine Deneuve e Ludivine Sagnier) e sua filha Vera (Chiara Mastroianni), mostrando os caminhos percorridos e seus destinos, abordando o relacionamento delas com os homens de suas vidas.
O filme começa em 1960, mostrando Madeleine ainda jovem, trabalhando para uma loja de sapatos, mas acaba se tornando prostituta, até conhecer e se apaixonar por um dos seus clientes, o médico tcheco Jaromil (Radivoje Bukvic), de quem engravida e muda-se para Praga.
Em meio as tensões da Primavera de Praga, quando a população tcheca entrou em conflito com tanques soviéticos nas ruas da cidade, Madeleine descobre que está sendo traída e decide voltar grávida para Paris, onde se casa com o soldado Guriot (Michel Delpech).
Após alguns anos, Jaromil retorna para Paris e se reencontra com Madaleine, aquela paixão de outrora reacende e ela decide fugir com ele e Vera, mas junto com o desejo, retornam as decepções que os consomem.
Depois da primeira parte focada na juventude de Madeleine, vemos Vera crescer envolvida e influenciada pelas decisões equivocadas de sua mãe, que acredita que seu destino é amar, e não ser amada. Nesse momento, o filme se torna uma saga envolvendo mãe e filha em um turbilhão de emoções, uma realidade trágica com um pano de fundo mostrando as principais modificações do mundo ao longo de quarenta anos, desde a Primavera de Praga, passando pela libertação sexual e a AIDS, até o 11 de setembro.
Diferente de muitos musicais, “Bem Amadas” é delicado na utilização de suas músicas, compostas por Alex Beaupain, também responsável pela trilhas de “Canções de Amor” e “A Bela Junie”. Eles não saem cantando e dançando com figurantes pelas ruas das cidades, todas as canções são bem colocadas durante as cenas, sendo em alguns momentos mais interessantes do que as próprias falas entre os personagens. As músicas te servem de apoio para entender o conflito interior de Madeleine e Vera. A introdução de Chiara Mastroianni é a cena musical mais bonita e repentina de todo o filme.

Chiara Mastroianni interpreta a melancolia e as tragédias da vida de Vera com uma maestria impressionante. Começamos a conhece-la em uma cena onde ela aparece dançando em um bar em Londres, acompanhada de seu amigo Clement (Louis Garrel). É nesse mesmo bar, onde ela conhece Henderson (Paul Schneider) e inicia uma paixão impossível, pois sendo homossexual, ele não sente o mesmo, diferente de Clement, mas Vera recusa seu amor. Inicia-se um triângulo amoroso recheado de sentimentos fortes e tragédias.
Vera é um espelho de sua mãe, suas decisões e seu amor cego por Henderson lembram bastante o amor de Madeleine por Jaromil. A impulsividade e a liberdade sexual é uma herança materna. Para ambas, o tempo não é capaz de apagar fortes sentimentos e decepções. Honoré trata com amargura os sofrimentos causados pelo amor, e te faz pensar se algum dos personagens se sentou realmente amado em algum momento. Todos estão fadados ao desapontamento. A vertigem que sentimos a partir dos momentos finais, deixam-nos sem palavras, restando apenas as canções para nos consolar.

